Risco de luz na imensidão da noite: vento de sonho. Quietude.

24
Mar 12

 

Um caminho mal-amanhado afeiçoado de muros de pedra em estado bruto. À direita e à esquerda das casas montes: pinheiros, eucaliptos, carvalhos, alguns sobreiros e castanheiros e mato com força. Por entre os pinheiros e eucaliptos uns carreiros que permitiam a ligação da estrada de Santana a Vila Pouca e a Meinedo. Em dias de vendavais e tempestades entrava pelas casas um vento frio e uivante que metia um medo aterrador. E quando chovia a chuva batia com tanta força nas telhas que Boavida tapava-se com os cobertores e só sossegava quando o sono a levava ou o cansaço ajudava à missa. A água da chuva rasgava os caminhos abrindo profundos sulcos e tornando-os um mar de lama fazendo deles locais intransitáveis. Eram noites horríveis para Boavida: ouvia o estrondo da forte bátega no telhado acompanhada o uivo lancinante do vento que se infiltrava pelo buraco das fechaduras ou por um qualquer orifício e concomitantemente sentia o caudal medonho da chuva a tornar os mal-amanhados caminhos num perfeito caos. E ainda lhe chegava o bailado endiabrado das árvores dos montes que o vento e a chuva fazer bailar num estranho bailado de beijos e abraços, gritos e gemidos, paixões e aflições. Nessas noites praticamente não dormia.

A sua casa ficava a meio de uma rua que não tinha saída. Oferecia duas entradas, sem portões. Dois pequenos quintais com diversas árvores de fruto. O da direita era o que possuía um poço com uma mina de quinze metros encapelada. A água era muito boa, brota diretamente de um penedo, dizia quem já tinha descido às profundezas do poço.

A casa era um rés-do-chão. Remontava ao século XVIII: a parte primitiva. Toda em pedra – afeiçoada exteriormente, mas não por dentro. Esta primeira parte tinha a forma de um retângulo e era composta por quarto (junto ao caminho – a Oeste), uma sala e uma cozinha (a Oeste). Conforme a família ia aumentando e ia crescendo as necessidades foram aumentando, igualmente, o número de quartos, de salas, de cozinhas, casas de banho, de tanques de lavar e a adega. E a casa tomou a forma de um L.

Boavida recorda-se de num só quarto dormirem dois ou quatro irmãos, duas ou quatro irmãs ou só um irmão ou uma irmã, dependendo do espaço ou da dimensão da divisão. Por exemplo, a sala onde dormiam duas irmãs era abundante, tinha arcaboiço para mais duas e sobrava espaço para bailar. O mesmo acontecia com o denominado quarto dos rapazes. Aliás, houve momentos em que a casa parecia fantasmagórica, dada a circunstância de só ele e a mãe a habitarem.

Era uma casa simpática. Gélida de inverno e muito fresca e acolhedora no verão. Boavida nasceu no quarto e na cama onde dormia todos os dias, uma curiosidade curiosa, que não deixava de ter a sua piada e que o levava a recordar as palavras da mãe: «Enquanto a tua irmã foi chamar a Zulmirinha, nasceste. Quando chegou só precisou de te lavar e de te vestir. No fim meteu-te no meu peito para manares. Nasceram todos assim, facilmente. A Zulmirinha dizia, a rir-se, que eu tinha os filhos com a mesma facilidade com que os fazia.»

Contou trinta e três anos dentro daquelas quatro paredes. Uma vida! Todos os dias levantava-se e após os cuidados habituais matinais de higiene e do pequeno-almoço, a escola era o seu destino. Cumpriu esta via-sacra durante longos quinze anos: espaço temporal marcadamente extenso, extenuante, exigente e marcadamente importante para o seu futuro, assim, foi levado muito a sério, tão seriamente que o quarto reuniu durante todos este espaço temporal a preferência como local de encontro para sala de estudo.

Três eram os compartimentos importantes daquela casa: o quarto, a cozinha e a casa de banho. Por esta ordem. O primeiro era o centro do seu universo, o segundo era importante por uma questão gregária: o momento das refeições era sagrado, a família reunia-se, momento de convívio, momento fraterno e de atualização de conversas e troca de informações. O terceiro, é óbvio, nem se discute.

A casa é o nosso espaço, a nossa intimidade, a nossa liberdade, sendo o compartimento que habitamos (o nosso quarto) o espaço sagrado, a dimensão sagrado e um local inviolável. Boavida desenhava o seu espaço num âmbito quase bíblico: as suas coisas eram tocadas, mexidas por ele e só por ele. Livros, cadernos, rascunhos e papéis eram intocáveis. Virava fera quando mudavam de emissora ou de canal ou lhe mexiam nas cassetes devidamente catalogadas, numeradas, marcadas e dispostas em grupos segundo características bem definidas. Detestava quando lhe surripiavam um lápis, uma caneta ou qualquer outro material. Não gostava que o irmão calçasse as suas sapatilhas ou vestisse as suas camisas ou os seus polos. Era chinfrim pela certa.

Pedro interrompeu-o. Estava com ar de gozo e vontade de se rir. Disse: «Porque não querias partilhar as tuas coisas com o teu irmão? Boa! Esta era de estalo. E agora? Tinha de sair airosamente desta enrascada, Pedro: «Espero que entendas o que te vou dizer, a vida não é cor-de-rosa, é de muitas cores, mesmo das mais escuras, e nem mesmo aos irmãos devemos ou podemos fazer tudo. Um dia vai escutar esta frase: ‘Não dê o peixe, dá-lhe antes a cana e ensina-o a pescar.’»

O quarto, era pois, o seu mundo Funcionava como válvula de escape, como local de refúgio, como sala de estudo e como centro de evasão para delinear sonhos, imaginar quimeras e acordar e olhar novamente o mundo real.

Casou e mudou de freguesia. A casa entregou-se à mãe. Circunstâncias da vida, um AVC, levaram a sua progenitora a deixar o L novecentista. E quando morreu nenhum herdeiro quis a casa onde tinha nascido e vivido. Foi vendida e ainda existe. Teve sorte. Foi reabilitada: bonita, requintada, uma beleza. Boavida sempre que se cruza com ela quase para e olha-a pausadamente e segue viagem com a saudade a rer-lhe as entranhas.

 

João Boavida: Itinerário De Um Fura-Vidas

publicado por José Carlos Silva às 09:37
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