Risco de luz na imensidão da noite: vento de sonho. Quietude.

22
Mar 12

 

A primeira vez que a pressentiu tinha quatro anos. Acordou e o silêncio perdurava na casa como se algo se tivesse quebrado. A seu lado o seu irmão mais novo ressonava num dormir desprendido de quem existia somente há dois anos. Levantou-se com cuidado, não queria perturbar o sono do Luís, e percorreu a casa, veio ao exterior, vestiu-se e encaminhou-se – através de atalhos, pelos carreiritos e campos – para casa da Finoca. Esta era a casa que a sua mãe pousava quando abandonava a sua. E caso não estivesse neste local estaria cem metros atrás, em casa da Melinha. Ambas, primas e diletas amigas de tretas e desabafos, de anedotas e gargalhadas, de desgraças e misérias.

Caminhou lesto até casa da prima Finoca. A dez metros estacou. Resguardou-se na sombra de um bardo da vinha. O movimento era anormal e notavam-se lágrimas a rolarem nas faces engelhadas das mais envelhecidas. Boavida concluiu: a Finoca mais velha foi-se.

Retrocedeu e regressou a casa. O Luís continuava a dormir e o silêncio perdurava. Dirigiu-se à cozinha e procurou pão para comer. Encontrou uma broa que a mãe tinha cozido e com uma faca partiu um pedaço. Sabia que a mãe tinha algures algumas tigelas de marmelada e que uma delas estava na cozinha. Levantou a tampa da amassadeira: ei-la. Retirou-a. Barrou a broa com marmelada e deliciou-se. Acompanhou com um copo de água, não era amante de leite. Nunca seria.

Enquanto comia ia matutando, então chegava-se a uma certa idade e partia-se. Uns por doença, outros por acidente, e havia outros que se matavam e por fim os últimos: aqueles que pertenciam ao grupo em que o tempo terminava e tinham de ir embora. A Finoca Velha (havia a Finoca nova) preenchia a última condição.

Boavida tinha quatro anos e cogitou: «Sou muito novo, ainda tenho muitos anos para viver, para quê estar aqui a esturricar a moleirinha?» E era verdade. Pensava que com quatro anos ainda tinha muito mundo para ver e que muitas coisas ainda iam suceder e que muita água ainda ia passar debaixo da ponte. Daí que o melhor a fazer era terminar o pequeno - almoço e ver a vida do irmão mais novo e de seguida verificar se a mãe já tinha vindo, e se caso ainda estivesse pela casa da Finoca Nova (agora era da Nova, a Velha tinha entregue a alma ao Criador e S. Pedro já lhe tinha ditado a sentença) iria ver como estava a dança. O que não tinha decidido era se teria coragem de se aproximar da morta, da Finoca Velha.

Arrumou tudo. O irmãozito continuava a dormir regaladamente. Tirou-lhe a colcha para trás, pois viu-o transpirado. O Luís nem se mexeu, continuou no seu sono de beleza como se nada mais fosse importante no mundo.

Encostado ao umbral da porta do quarto, Boavida parecia minúsculo perante aquele dia soalheiro de agosto. Dia que se apresentava claro e luminoso, azul e quente, sem nuvens e ardente. Um dia que ia caminhar lado a lado com ele para o resto da vida. Foi um dia que se assemelhou a um batismo, mesmo que tardio, um ungir em que a vida e a morte se confundiram num só momento.

A sua irmã Ana surgiu esbaforida. Vinha de lá mas tamanha aflição em nada tinha a ver com um desfecho consumado e entregue já nas mãos de Deus ou do Diabo. A razão era outra! A prima Dores, que morava a cinquenta metros da casa da Finoca estava prestes a dar à luz e ninguém sabia da Semarquinhas da Rua Amarela. Queria saber se a ele a tinha visto passar. Momento feliz! É claro que sim. A boa da velhinha estava ao lado, a colocar a conversa em dia com a Rosinha d’ Além. A irmã não quis ouvir mais nada, desapareceu como uma seta em direção à casa da Rosinha d’ Além.

Fez votos para que o parto corresse pelo melhor. Mas logo sossegou, tudo que tivesse as mãos da Semarquinhas da Rua Amarela era um selo de garantia, um certificado real. E dito e feito, volvidos uns trinta minutos o território do lugar do Casal sabia que havia mais um rapagão para correr atrás da bola nos dias de verão, andar aos ninhos e tolher a paciência aos lavradores por causa dos desvios da fruta e dos desvios aos meloais. Deram-lhe o nome de Guilherme, e mais tarde Boavida metia-se com ele e dizia: «Ora, cá temos o nosso Guilherme…Tel.». O que irritava soberanamente o amigo e primo.

As irmãs foram-se chegando para casa (o pai e os irmãos mais velhos andavam na faina) e ele começou a ponderar se ia ou não a casa da morta. Acabou por decidir-se pela ida. Da vinha reparou que tudo tinha serenado, num ápice decidiu-se, ia avançar, ia ver a morta.

Quando chegou à porta daquilo que parecia ser uma sala térrea, de pedra, rebocada a cal, pintada a cal branca e mal-amanhada, viu a sua mãe e uma dúzia de velhotas a rezarem o terço. A Finoca Nova choramigava. Os filhos olhavam a avó. Esta parecia estar muito serena e até muito bonita. Ainda estava deitada na cama, pois o caixão não tinha chegado, era o Latas, o genro da falecida que andava a tratar de tudo. E só lhe ficava bem, também ia herdar tudo.

As velhotas deram o terço por rezado e a mãe olhou-o fixamente como lhe dizendo para ir para a sua beira. E foi. Sentou-se no seu colo e dali observou a Finoca Velha à vontade. Tinha morrido há poucas horas e já estava hirta, rígida. Tocou-lhe. Estava gelada. A boca torta e aberta e os esbugalhados, só a pele face parecia serena, apesar de engelhada. Como as primeiras enganam: ao longe parecia bem, de perto um cangalho. A morte era um caso mais sério do que tinha imaginado! Raio de vida! Pensou Boavida. Foi nesse momento que se anichou no colo nos braços da mãe e a abraçou e a beijou, assim como ficou a saber que durante toda a sua vida teria uma companheira: a morte.

Voltou a ver a falecida no caixão e assistiu ao levantamento do seu funeral (à sua saída de casa). Tanto choro, tanta dor e a morte sorrindo triunfante.

Certo que não era a primeira vez que via a morte a deambular por ali. A primeira vez que viu um funeral foi de uma personalidade ímpar: um embaixador. Um mero acaso. Estava de atalaia no seu ponto de vigia, no penedo de sonho, lá no alto do monte da quinta da Bouça e de repente, sem contar, vindo de Vila Pouca, daquela casa senhorial, um notável cortejo que se assemelhava a um funeral pelos tons dos pendões e estandartes. Comprovou-se que o era quando se aproximou do portão da quinta. Era um funeral monumental! E Boavida, lá do cimo, mirava incrédulo aquele fúnebre cenário que se movimentava ante seus tenros e infantis olhos. Poucos meses depois havia de assistir ao funeral do avô da Marinha, que foi feitor na casa de Vila Pouca.

A morte tornou-se normal. Registe-se que Boavida fazia parte de um grupo familiar numeroso e esta razão era a consequência natural para a anterior.

Desde cedo visitou enfermos. Desde cedo esteve e deu alento a doentes terminais. Desde cedo foi a velórios. Desde cedo foi a funerais. Desde cedo percebeu que existia um companheirismo e uma relação teatral entre a vida e a morte.

Mas existe sempre uma primeira vez para levar a verdadeira pancada da morte. A vida também é feita destas grandes tormentas e ninguém se prepara para elas por muito que o afirme. Isso é uma quantidade de tretas. Dizer: «Temos de nos preparar.»; «Temos de ser fortes.»; «É vida.»; «É uma roda.»; «Tem de ser forte.», «Tem de continuar a caminhar.»; «Em frente é o caminho.»…São um conjunto de tretas que pouco ou nada ajudam. Boavida já as ouviu infindáveis vezes, assim como também houve circunstâncias ganas de fazer às pessoas o mesmo que se faz às galinhas: torcer-lhe o pescoço.

Já andava no Ciclo Preparatório quando a Tia Amélia se lembrou de evadir para sempre. Deu-se um quase colapso! Um choque! O grupo familiar ficou petrificado!

A Tia Amélia era como o elo agregador de toda a família, o polo aglutinador, o pronto-socorro nas horas más, a alma benfazeja das horas boas, e era a memória viva de um tempo de glória e de fortuna: única representante dos Soares de Moura, ramo de Romariz – Meinedo, pertencente à nobre casa D’ Além, outrora toda-poderosa, pois em meados do século dezanove teve a honraria de ver sair para presidente de Câmara do Concelho um dos seus senhores, tendo entrado em declínio total na década de quarenta do século vinte.

Uma bela tarde de agosto, contando pouco mais de setenta anos, a Tia Amélia apagou-se. Boavida fez um quase silêncio, era natural, persistia sempre uma certa emoção quando remorava este nefasto acontecimento. Pedro não o entendia bem, mas como escutava as memórias dele com respeito e devoção raramente o interrompia. Desta vez fê-lo. Pergunta simples: «A Tia Amélia era assim tão importante? Só por aquilo que contou ou há mais alguma coisa?» Boavida pediu tempo para retomar o fio à meada, era natural que o filho estivesse ainda distante de certas emoções, de certos sentimentos, entendia perfeitamente, também ele tinha passado pelo mesmo. Há situações que só a idade dá o devido entendimento. Pedro também lá chegaria, a lei da vida assim o determina.

Boavida elaborou a argumentação da importância da Tia Amélia para a família: era tudo o referido anteriormente, o seu peso, a sua persuasão, a sua palavra que continuava a valer e pesar muito no seio da família e da comunidade, a questão do simbólico e do seu valor: durante séculos a casa d’ Além dominou Romariz, ora esse domínio não desaparece da cabeça das pessoas num piscar de olhos. E há questões de pormenores que nem sempre são percetíveis mas que perduram durante décadas e décadas. Intuir a essência desta realidade é importante no percurso da vida, no itinerário do quotidiano, mas não deixa de ser relevante na morte e na memorização da existência da vida.

A Tia Amélia transmitia um ar aristocrático e um porte de soberana. Sempre que a mirava lembrava-me uma daquelas velhas senhoras donas de solares e abastadas propriedades do interior nortenho e da famosa corte da aldeia. Ar, porte, tom, modo, ser, olhar, dignidade, enfim, tudo nela era caraterístico de uma dama do jaez dessa corte de aldeia que fez as delícias dos autores do século XIX.

Há uma outra história sobre esta nobre Tia que tem de narrada. O maior gaudio de gáudio de todos os seus sobrinhitos era estarem atentos ao momento em que ela urinava. «Como? Ela não ia à casa de banho? Onde se colocavam?» Pedro, vamos com calma. Primeiro não havia casa de banho, mas sim uma retrete, e manhosa, em madeira. Segundo, a Tia Amélia não fazia chichi na casa de banho mas na estrumeira. «Na estrumeira!» Sim, na estrumeira. E quando surgia a oportunidade lá estávamos a observar o método. O certo é que era eficaz. A Tia Amélia colocava-se em cima da estrumeira, abria as pernas e zás, urinava. Pergunta o filho: «Molhava as cuequinhas?» Isso também nós pensávamos. Mas não. A Tia Amélia não usava esse tipo de lingerie, era muito poupada, gastava mais tecido nas saias que usava até aos pés.

Hilariante é a história do pedido de namoro do Joaquim Peças que ela não suportava. O Peças beijava o chão que a Tia Amélia pisava, mas sempre que ele rondava a Casa d’ Além ela nunca se achava presente. O Peças não era de desistir, colocou-se num lugar estratégico onde pudesse ver as saídas e esperou. Não queria saber se seria a manhã toda ou o dia todo, tinha tempo, esperava…Não precisou de olhar por muito tempo os peixes do regato, ei-la toda ladina a sair de casa em direção à quinta do cabo. Deu-lhe uns metros de avanço e montou a cavalo. Rapidamente a alcançou. Desceu do cavalo. Cumprimentou a amada e recebeu um amuo. Destemido declarou-se. E de imediato recebeu uma desoladora e definitiva resposta: «Você não tem autocracia para namorar comigo.»

Veio a casar uns anos mais tarde. O Tio Francisco adquiriu autocracia para a namorar, para se casar e para ter amantes. Conta-se que quando vinha de visitar alguma das amantes (um dos vícios dos Soares de Moura) tinha o hábito de rezar o terço sentado na cama, enquanto a Tia Amélia rezava de outra maneira.

Foi uma morte repentina. Santa. Caiu para o lado e ficou. No dia que morreu havia quem alvitrasse que a razão primacial advinha de uns couros que tinha comido na véspera com a sopa. Ainda hoje sorrio quando me lembro. É bem verdade: a morte não quer culpas.

Família grande, grande funeral. Quem sentiu muito foi a Rita. E todos sabem o porquê ou os porquês: a Tia Amélia criou-a desde pequerrucha quando a mãe foi internada por razões extremas de saúde.

Dor a valer, a doer, a rasgar, a matar, a derrubar, a ferir o pensamento, a destruir a inocência, a cortar o sonho, a obrigar a encarar e a pensar o futuro foi a morte do pai.

 Boavida faz uma leve festa no cabelo do filho, uma quase ternura, nada lhe diz, há um silêncio, um olhar distante e mudo e a certeza que a ferida demorou longos anos a fechar e a cicatriz é ainda uma linha branca e ténue, tal como o voo da ave e o pensamento continua a recordar todos os momentos idos.

Recorda-se que estavam todos os quatro acordados. Era sábado. Faziam horas para irem trabalhar. Recorda-se que ouviu os pais a conversar e que sentiu o pai a encaminhar-se para a cozinha. Recorda-se de ouvir um qualquer barulho e quase de seguida o grito pavoroso da mãe. Recorda-se a velocidade até ao hospital de Lousada e do momento em ele sucumbiu nos seus braços: curva de Várzea. Recorda-se das palavras do médico: «É melhor levarem-no ou vai ter de ser autopsiado.» Recorda-se da confusão e da dor da chegada. Recorda-se dos três dias de velórios devido ao filho que está em França. E recorda-se da sua vida que deu uma volta de trezentos e oitenta graus.

O pai era uma personalidade muito conhecida: mestre-de-obras. Durante três os amigos vieram a sua casa. Durante três dias teve amigos que não arredaram pé. Nunca o esquecerá. Amigos como o Bessa – e outos – estarão sempre na sua memória. O dia em que morreu despertou cinzento, o primeiro do ano. O dia em que desceu à terra vestiu do mesmo tom. Boavida era de poucas lágrimas – e ainda é. Persiste em chorar todos os dias em vez de o fazer de uma só vez. Muitas vezes pensa para si mesmo que prefere ser como aqueles que choram e berram, esganiçam-se todos, gritam e fazem espalhafato e ao outro dia o assunto passa à história. Era bem melhor para ele e para quem o rodeia, não parece mas sofre e faz sofrer quem mais ama.

Sábado, domingo e segunda. Três dias de velório. Três dias de sofrimento! Não. O sofrimento vem imediatamente a seguir. E dói imenso, a dor é invisível.

No funeral do pai Boavida quase fugia da fila onde recebia os pêsames e num certo momento aparece-lhe, pela frente, a Isabel! Perplexo, deixa correr o marfim. Há alguns que não se falavam, ela tinha dito não ao seu pedido de namoro e ele nunca mais lhe perdoou. E ela tinha vindo! Agora era tempo de emendar a mão. Amanhã, na escola.

Lágrimas, choro, o grito da perda, a dor, o momento do adeus e rumo à igreja. Caminha-se como um sonâmbulo atrás de uma urna contendo um cadáver ladeado de ramos e coroas de flores e amigos que se despedem. Na igreja reza-se e no cemitério entrega-se o corpo à terra.

Olhos chorosos, dor, esperança desfeita, céu desfeito, manhã fria, adeus consumado. Boavida só pensa que o objetivo é: continuar. Mas perdeu muito do sabor que tinha. Havia uma aposta entre os dois. E agora? Ele foi-se? Tudo se resolverá.

No dia seguinte acorda sobressaltado. É quase meio-dia e o padrinho quer falar com ele. De tudo o que ouviu reteve uma frase: «Agora és tu o homem da casa, cabe-te ajudar a mãe a resolver todos os problemas.»

Já era bacharel quando o seu cunhado ferroviário disse adeus à vida: uma cirrose ceifou-o. Morte há muito definida, mas sem data marcada. Cruel e dura foi a do filho: virou um trator em Mirandela e morreu. Boavida tinha um ano de casado e deslocou-se ao hospital transmontano para identificar o sobrinho. Ver dezanove anos perdidos numa fútil brincadeira é perder a oportunidade de poder ser feliz. A irreverência da juventude hipoteca o futuro, por vezes cerceia-o definitivamente.

Não bastava a negra noite do desaparecimento do neto e havia ele de falecer num estúpido acidente de trator. Boavida nunca entendeu como é que um homem como o seu cunhado morre daquela maneira! O certo é que acontecem um sem número de acidentes mortais inexplicáveis e estúpidos. Foi o caso. Para a sua sobrinha foi uma perda irreparável, apesar da procura da verdade ter continuado relativamente ao neto que desapareceu, mas funciona como um verdadeiro esteio, um pilar muito respeitável e poderoso.

Há expressões populares que tudo definem e tudo caracteriza de uma forma simples e lapidar. É comum dizer-se que de nada adianta chatearmo-nos por isto ou por aquilo porque a vida é bela mas curta e, portanto, o melhor é vivermos um dia de cada vez e sem muita pressa. Quotidianamente isto vibra nos nossos ouvidos e, normalmente, pouco ou nenhuma importância lhe atribuímos. Mas devíamos.

A mãe de Boavida morreu de velhice. Somava perto de noventa anos. Quando o coração parou ela sumiu-se. Morreu apertando a mão de Boavida. Foi-se levemente, como um passarinho num suave voo.

Doeu. Custou. Mas a idade não perdoa. Mas doeu-lhe muito. O coração rasgou, sangrou e depois endureceu. E depois surgiu a tristeza, a melancolia e a vontade de chorar.

Boavida revive a mãe vezes sem conta, ele tinha uma fortíssima ligação à mãe. Adorava aquela velhinha. Gostava de lhe fazer meiguices na face sulcada de rugas e de passar os dedos pelos cabelos. Gostava de se sentar perto dela e vê-la costurar e conversar. Há histórias que ela lhe contou. São histórias antigas, mas são muito lindas!

Quando Pedro escuta o pai falar da mãe olha-o sempre com apreensão, ele fica completamente diferente e nada lhe diz mas acha que ele devia adorar a avó velhinha.

Boavida é o penúltimo de doze irmãos. Eram doze. Nos dois últimos dois anos foram-se dois. O primeiro, o testinho da panela, morreu de cancro. E o outro, mais velho do que ele morreu de acidente de viação. Sobrou a dor e a saudade. Do mais novo recordava a grande camaradagem e as farras, as noitadas, as idas às festas e romarias e as pegas e as conversas até altas horas da madrugada sobre o futuro, os anseios e as mil e uma peripécias que povoavam os sonhos de cada um. Ao fim de semana era uma certeza: a ida ao café Raposinha: centro nevrálgico de todos os interesses que se entrecruzavam no diminuto território do lugar do Casal. Casaram-se e mantiveram o elo. Havia sempre um fator que os unia: o sangue e outra característica única: as vivências do passado. 

O segundo a bater com a porta, o Marcolino, despenhou-se do vigésimo andar num desequilibrado e inoportuno acidente. Uma desatenção foi-lhe fatal. Contraiu doença fulminante e fatal e voou para o abismo celestial.

Boavida viveu a circunstância da dor num espaço temporal muito curto: menos de dois anos. A vida era tudo menos justa para com ele. Mas a realidade era aquela e nada havia a fazer. Assim, em momentos distintos e circunstâncias diversas e razões diferentes, viveu o lado doloroso da via-sacra da vida e percorreu o caminho da dor sem verter uma lágrima, pois o coração sangrava fruto da ferida que teimava em não cicatrizar. A dor era incomensurável! A verdade é que terminou num estado caótico e patologicamente doentio e terminou nas mãos de um médico. Trabalhou sempre. A vida dizia-lhe que havia uma rotina que mantinha uma continuidade infalível e nada se alterava, o mundo pulava e avançava, nada ficava suspenso por causa dos seus estados de alma. Ele sorria quando lhe diziam e enfatizavam esta realidade, mas com o passar dos dias, das semanas, foi intuindo a nudez, a crueldade da verdade. O choque foi a melhor terapia e a vida voltou ao seu curso normal. A morte tem destas anormalidades e a normalidade nunca o é num cenário de perda de entes queridos, de ausência, de fuga, de adeus, de sonho mutilado, de quimera perdida, de riso assassinado, de dor submetida e/ou de amor sonegado.

Boavida tem vivido infindas situações de mortes: de amigos – algumas bem dolorosas – e de conhecidos. Todas elas são sempre mantos de dor e gritos de ausência forçada.

A morte ao longo dos séculos, dos milénios, revestiu-se sempre de um princípio: dor e silêncio, fim e despedida e desespero, abandono e impotência perante um fato que o Homem se tem de render. Boavida sorri, dá a mão ao filho e dirigem-se para o carro. Regressam a casa calmamente, em silêncio.

publicado por José Carlos Silva às 23:04
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